segunda-feira, outubro 11, 2004

Vinte e poucos

Ao passar deste ano inteiro já estarei com quase os vinte e três da minha vida única. De certa forma irrelevante, mas extremamente preciosa pra mim quando em uma manhã qualquer irei ao aeroporto e escolherei onde irei passar umas semanas. Onde eu quiser, a minha escolha fruto da vontade de ampliar a consciência física e sensorial. Minha cercania tem a mais bela geografia que eu conheço porque penso na geografia dessa cercania pelas personalidades que habitam em uma empatia sem tempo ou lugar. O resto é boa curiosidade e vontade de estender a geografia em toda uma rede de pessoas que se entendem e sentem empatia umas pelas outras.

Neste domingo de calma senti vontade intensa de escrever depois de tanto ensaio e instalação. Vontade de rabiscar neste espaço provisório, improvisado e impessoal. Vontade de escrever num lugar que possui um perfume que nunca senti durante vida e que sempre irei co-relacionar a ele. Escrever enquanto houver vida e a consciência permitir.

O meu medo de quase nada (estado atual) chega a me assustar. E mesmo com tanta vontade, sei que escrever é uma pequena atividade perto da amplitude vida que amo tanto. Ter muita vida chega a doer, mas mesmo assim é bom porque uma hora chega a paz e com ela o autocontrole, a apreciação do fenômeno. Teria vida pra dar, me orgulho disso. Tenho conhecimento que a dor de não ter essa vida é igualmente grandiosa; mas Dor passa e Vida fica porque é mais forte que tudo, mais forte até mesmo que o nada, tanto que rompeu essa coisa chata e criou parques e criançinhas correndo. Criou situações que me fizeram admirar os seus moldes em um domingo tranqüilo, desencadeando existência na boca. Trouxe situações que me fizeram desejá-la. Sim, desejá-la.

A vida cada vez mais me prende e se dispõe. Fértil, semeando tudo o que existe com um belo sorriso que não posso ver, só o sinto no peito, me entrelaça com as suas pernas e me põe na boca um beijo que me enche de febre, me enche de luz e desejo intenso por ela. Pela vida, a cada dia mais, assumindo a minha fraqueza tal como um garoto que lacrimeja no colo da mulher me fazendo querê-la até o fim, intensamente. No claro, na luz. Enquanto houver forças para resistir acordado e confirmar como a desejo.

Só o que posso escrever é que minha vida anda certinha... o suficiente para observar o cachorro brincar na rua. Só o que posso fazer é um bom café para dois e expor meu ponto de vista que já não é lá dos mais sãos: dizer que eu só quero uma pessoa que diga pra mim "eu vou sempre estar lá quando você acordar" e coisas do tipo, me queixar de que não há clima frio para sentir o calor sob os lençóis ou aumentar o bem-estar enquanto leio para me manter desperto. Você não gosta desse ponto de vista... eu entendo, é estranho mesmo.

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