É da penumbra que observo sua tez, minha admiração sem medidas traz o anseio de te dar a vida. Anseio teu corpo sem consciência que tem vida própria, mas que não minha. Se mexe, se acomoda e me fascina. É da penumbra que toco sua tez em trajetória breve e devolvo a vida como se não a tivera antes. Com a polpa de um dedo apenas sobre sua tez que se revela.
Fosse eu o Deus solitário em um mundo sem flores e tu aquela que moldei em minha mente de forma atemporal e espacial. Eu há muito sozinho. Não houve sol, e quando interrompo o toque vejo seu despertar junto com a nesga de luz que se esguia fresta adentro. Só posso ver e sentir a curiosidade de lhe dar a vida para sentir como é a morte, com o acalento de saber que renascerá, sempre, de novo e ainda mais bela. Feminino, longilíneo e atraente. O teu corpo que abre me os olhos, eu julgava tê-lo à minha mercê. Ledo engano.
Sou ciente que nada crio, apenas simulo e imagino. Humano, lúbrico, calculista e, ainda assim te amando aguardaria pelo seu despertar por eras a fio, ainda que a luz do sol deixasse de se mostrar pela fresta de nossa janela, mesmo que não haja mais luz ou alma viva no mundo. Ontem esperei pelo sol e nem adormeci para esperar por este instante. Acordei no escuro e solitário espaço e sempre a via, linda e adormecida. Não poderia mesmo ser Deus – dois segundos ao seu lado, a luz do sol refletida à sua tez para eu ficar estático e sem saber como me comportar, apenas te olhar. Quem sabe mesmo os maiores dos Deuses sejam assim também, talvez.
E o mais incrível é que não és mais carne agora: eu sou. O processo tomou rumo contrário e me sinto feliz, pois não sou rejeitado, como quem TUDO criou. Parei de apenas ter o anseio de criar para querer desejar um sentido, algo que não a solidão, sem sol, luz pela janela e sem teu corpo. Passei a ser intensamente humano ao te admirar despertando, sonolenta, linda com sorriso claro, se reerguendo nua sob o sol que não era mais nesga de luz. Eu, causador de tudo, peço, por favor, esteja comigo presente e ausente, acalentando o meu pesar e o anseio de te amar.
Semana produtiva, 3 posts - 4 processos seletivos. A farra acabou, volto ao trabalho.